sábado, 24 de abril de 2010

Silêncio

Nesse vazio de gente que foi embora
De semente que não rompe a terra
De luzes sem brilho
Aguardo em silêncio e com mãos crispadas
Repouso minhas costas no abacateiro e espero uma folha cair
Ela cai
Mas você não chega
Seu perfume não perverte esse ar que agora cheira a nada
Sem você esse vermelho não faz sentido
A música é sem som
E a beleza dorme

sexta-feira, 16 de abril de 2010

... ainda continua

- Eia gato!... desse jeito você me assusta...

Luiz é dos angolanos que sofreram preconceito por serem brancos. Por conta disso teve que fugir de sua pátria com sua família, chegando ainda muito pequeno ao Brasil, mas logo conheceu seu destino quando seu pai foi levado pelas mãos resolutas da fatalidade. A única coisa que herdou do pai foram os seus livros de história e de literatura, e aos dezesseis anos teve que ir trabalhar para ajudar a mãe. Seus gestos precisos e elegantes, porém, revelavam alguma nobreza que parecia vir naturalmente de seus antepassados. Seus olhos quase verdes e a postura firme de um rapaz ccom seus vinte anos lhe confirmavam a elegância e uma sensualidade sutil, que só quem se aproximava de seu mundo é que conseguia realmente perceber sua intensidade.

- ... mais uma noite à caça, hein? Cuidado, porque qualquer dia desses é você que pode estar nesse prato com fritas.

Mathieu entendia os perigos da noite, mas preferia estar com as almas perdidas dos boêmios do Paradoxo, do que viver em função do medo. “Essas são criaturas da noite, assim como eu”, pensava entre um ronronar e outro, ao fim do frio filé com fritas. Entre essas criaturas estava Vitor, um jornalista que sempre aparecia por lá, logo cedo na noite, e que trazia algo de misterioso em seu olhar. Vitor parecia ter percebido a enfermidade que a beleza causa nos olhos dos mediocres.

***
II.
Vísceras

Os segundos pareciam respirar ofegantes, enquanto os minutos os fitavam com olhares maliciosos. O tempo desobrigava-se de si próprio e aquela manhã, quando a rua, os prédios e todo o espaço ia se dilatando à medida que o sol esquentava e diluía o frio hesitante de junho, seria uma manhã de segunda-feira como todas as outras, se não fosse a náusea que me cercava vertiginosamente.

Acordei inquieto, sentindo em meu corpo um suave descompasso. “O oxigênio arde no nariz”, tenho sempre essa sensação quando saio de casa, “todas essas pessoas... parecem deixar para trás o odor de suas almas atormentadas...”. Havia percebido o sorriso efêmero das coisas; havia percebido o sorriso dos céticos em meus lábios.
Enquanto meus passos ainda incertos cruzavam as ruas do bairro, pensava no planeta que sangrava mais uma vez em nome da cruz e do credo. Sangue que semeava os campos da Terra Santa. “... é, a história sempre me pareceu ter a morte como cúmplice...”. De repente, meu pensamento ganhou a textura líquida de uma música que lembrava água escorrendo na sarjeta. Foi quando uma visão, uma silhueta que se movia languidamente no outro lado da rua, cortou o fluxo dos meus delírios. Seu vestido estava deliciosamente colado ao corpo e o sol, que transpassava seu tecido, revelava o contorno de seu sexo no translúcido e entorpecia minha imaginação.
- Vitor... Ei!
Uma voz rouca e densa me arrancou do quase transe que me levava; ela parecia vir de algum lugar esquecido, mas diabolicamente confortável, uma sensação morna de conforto que despertava uma ânsia quase insuportável de alegria... alegorias em dia de Cinzas. O vento levou meu pensamento ao estado de voz:
- Ei Júlia. ‘Indo pra onde?
Júlia era quase um espectro. Tão lânguida e tão forte que... “eu poderia me perder no misterioso negro de seus olhos”, pensou. Na verdade já o havia feito, numa daquelas noites em que a embriagues nos põe em estado da graça. Nessas noites, destilávamos adjetivos em um suntuoso jogo de palavras e gestos. Mas na noite passada, houve algo além do acid jazz que se espalhava por entre as mesas e as pessoas.
- Vou fazer umas fotos naquela velha fábrica de tecidos... no litoral norte, lembra?
- Hum...
- E você, de novo com esse ar ateu? Aliás, combina com esse dia tão cinza. Pelo jeito você está indo pr’o jornal; aquela velha jaula de pensamentos incendiários.
- É... criar meios sutis para meias verdades. Para essa jaula nunca houve uma chave... “mesmo que a tivéssemos, não saberíamos ao certo como diferenciar o conveniente da liberdade, da liberdade conveniente”... preciso ir, estou atrasado de novo. Nos vemos no Paradoxo hoje à noite?
- Por que não?
O dia seguiu movendo suas pesadas engrenagens, em um movimento continuo das horas corroendo o tempo, o tempo corroendo a vida, a vida corroendo os sonhos...Já passava das seis quando a noite gentilmente envolveu a cidade, despertando em Vitor sinistros pensamentos que não ousara ter entre a difusa luz do dia; penetras em festa sem convite... “o que seria de Apolo se seu carro derrapasse no fim do dia? E o que seria do dia...?” esse pensamento se perdeu junto com o último cigarro da tarde.
Chegar em casa era dolorosamente confortável. Naquele apartamento, “um latifúndio que lhe cabe”, dizia Júlia, Vitor tinha consciência de como o amor, a angustia e tudo o que se resume à condição humana eram negociados pelas mãos tremulas da sorte. Podia quase sentir seu toque hesitante precipitando-se pela nuca. Era naquele espaço de três quartos, sala e todo o resto que fora herdado de seus pais, que ele podia ser dono da indizível certeza que o fazia acreditar, mais e mais, na ausência de sentido na mente perturbada das “pessoas de família”. “Eu sou uma pessoa de família”, concluiu com quase um desprezo, que na verdade era mais um espanto, daqueles que nos tomam a consciência.
***
III.
Vazio

- Qual é seu telefone?- pergunta quase irritada a secretária.

- Você já não o tem? – responde Ester, sinicamente.

“Esse é um daqueles dias em que toda aridez do cotidiano reivindica seu legado”, pensou Ester com um cigarro em uma mão e o comprovante de residência na outra. “Já não basta ter de saber exatamente quem sou, ainda tenho que comprovar onde estou? Merda!”. A voz seca e dissonante da secretária confirma sua existência e Ester desliga o telefone com uma sensação de que pelo menos algo em sua vida pode ser resolvido. Agora, só restava a vida.

Ester, conhecida como “a mulher de Vitor” é, de fato, uma psicanalista revoltada com o silêncio de “um velho que descola uma grana pra não falar nada!”, era o que ela sempre dizia sobre seu analista, o velho mestre de seu grupo de estudos sobre análises das pulsões contemporâneas. Ester tinha algo de inacabado, de uma beleza sólida e misteriosa. Ester era, sem dúvida, a instabilidade mais certa que poderia inspirar qualquer sensação de segurança na mais descrente das pessoas. Ester era o equivalente a uma suave digressão a uma realidade utópica ou, se preferir, um mórbido estado de segurança.

sábado, 10 de abril de 2010

... continuação

Mathieu, como passou a se chamar após ter visto esse nome nas páginas de um livro jogado ao chão, observava da janela, já saciado, os pássaros retirando-se rumo ao pôr do sol. Dona Maria surge entre seus devaneios que seguiam os pássaros, pegando e guardando o livro na estante do quarto de leitura. Nesse movimento deu para ver o título: “Idade da razão”.


O quarto de leitura é o espaço da casa mais intrigante. É dele que os bigodes/antenas de Mathieu percebem uma espécie de energia estática, um magnetismo presente, que vem, mais especificamente, daqueles objetos na parede que Dona Maria chama de “livros”. Foi por conta de um desses que “Chiquinho” (não sabe porque o chamavam assim) passou a se perceber como “Mathieu”. Não se importava com isso, na verdade. Apenas experimentava o som das palavras por curiosidade. Como um gato consegue ler é um dos acasos obscuros que surgem das comunicações silenciosas entre os seres.


Ao voltar a atenção para janela a luz difusa do lusco-fusco anunciava a noite, e quando a noite chega, em fim, as pupilas já não se contraem diante de uma luz dolorosamente limpa, e os telhados não queimam mais sob as patas. Por uma perspectiva, a cidade parece muito mais misteriosa e receptiva, emitindo seus sons e cheiros que vem, principalmente, de baixo das telhas. Uma telha quebrada era um apelo ao voyerismo, que Mathieu, timidamente, dispensava alguma atenção. Frestas, vidros, vãos entre os bares da cidade pareciam o lugar ideal para encontrar comida. Seu lugar favorito, no entanto, era a cozinha do “Paradoxo”, bar onde ele encontrava Luiz, um assistente de cozinha que, vez em quando, ia fumar um cigarro no depósito dos fundos. Foi assim que se conheceram, Mathieu chegando por entre as latas, Luiz fumando um cigarro e um prato com restos de filé com fritas entre eles.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Urbanus

Vermelho... vermelho... vermelho... e espaços de silêncio. A luz continua, intermitente, vermelho... vermelho... vermelho. Lá fora as buzinas e as vozes entram em um acorde sofisticado na noite fria e sempre, sempre acolhedora no intimo de seus mistérios. Meus mistérios nada tem a ver com isso, mas com o vermelho dos meus olhos cansados. Meus dedos fatigados seguram mais um cigarro que alterno entre um sopro ou outro no trompete. Jazz... devaneios lúdicos e roucos dos meus mistérios, das minhas súplicas para que esse céu se quebre e dele surja apenas uma leve brisa que embale minhas súplicas, minhas expectativas estéreis, meus dias de nada, minhas doses oníricas contra a razão.
Vermelho... nada...vermelho... nada... vermelho... na... da.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Funeral Blues (W.H. Auden) - Fragmento

Parem todos os relógios e cortem os telefones
Evitem o latir do cachorro com um osso suculento
Silenciem os pianos e, com tambores surdos, tragam o caixão
Deixem as carpideiras virem

[...]

As estrelas não são desejadas agora,
apaguem todas, empacotem a lua e
desmontem o sol
Deságuem o oceano e varram as árvores
Pois agora nada mais servirá

sábado, 6 de março de 2010

I. Vácuo

Dona Maria se agacha e acende o pequeno fogareiro improvisado com uma lata de leite. O carvão inicia sua lenta transformação do preto para o vermelho e, depois de um tempo, branco.

A Carapeba arde sobre a grelha e começa a estalar, como se despedindo dessa realidade ou amaldiçoando seu estado que se ia no vento do abanador. Nome interessante para um objeto que justamente fazia o fogo arder.

No céu, o canto de um pássaro desconcentra o silêncio daquela tarde insólita... o tempo parecia redundante, em círculos, andando sobre o mesmo lugar e sem sair dele.

Sigo os olhos de Dona Maria que segue em direção ao céu, observando tristemente o opaco azul. Seus olhos pareciam duas ilhas estéreis, náufragas em um deserto negro.

Ao voltar os olhos para Carapeba, Dona Maria me percebe, "o que você está fazendo aí, menino?! Não tá vendo que você vai se queimar?!". Não respondo. Em vez disso, dou uma guinada no pescoço e começo a lamber meu dorso com uma plácida calma de quem não está interessado na pergunta. Mas, em nome da carapeba que agora já lança no ar um irresistível aroma, decido assumir uma postura mais sedutora e a olho de novo, com uma doçura no olhar, e vou me esfregar em suas pernas cobertas de varizes.

terça-feira, 2 de março de 2010

Quem sou eu?

Sou a máscara que os monstros usam quando querem passar despercebidos.

O que observa criaturas copulando na chuva, à noite, com um leve rubor nos lábios.

Cria alturas

Cria agruras

Cria, e aturas

Minhas asas pesam quando ando entre as criaturas,

e é esse jogo estúpido que mais gosto de jogar: me perder em seu corpo suado

Divagar entre ínfimas distâncias, destilando adjetivos.

É assim que meço a distância: em versos,

e o tempo, em melancolia.

São de palavras as minhas asas

e quando as inflo, escuto ecos, sussurros...

Sinto a língua em meus ouvidos, morna, como seu sexo,

como o que sinto quando nem a cerveja mata minha sede.

Sou um disfarce, daqueles mais óbvios, que de tão óbvios,

são bons disfarces.

Sou a máscara que os monstros usam quando querem ter com as criaturas.

Sou alguma coisa entre o aqui e o depois.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A carne e a culpa

Nesse abismo sórdido que nos separa não há senão o vento pestilento da desconfiança.
Nesse obscuro e profundo buraco da existência ainda há onde se apoiar os pés e tentar uma saída, mas nada é à toa e nem de feitura fácil. Não, não... o destino é perverso e exigente. Para se ter paz é preciso matar a expectativa de se ter paz, com duas gramas de sal e uma boa dose de comodismo. Daí é viver os dias letárgicos do por vir.
É aí, nessa letargia dos dias dolorosos de verão, que a carne se pronuncia. É exatamente aí que a carne arde sobre os ossos e cheira a carne viva e úmida. Cheiro que lateja até mesmo velhos músculos cansados. A carne tem fome de carne e não se importa se tiver de consumir a si própria, porque a carne só se importa com a carne.
Então, vem a culpa com seu odor que a antecede. A culpa seduz com os olhos e quando menos se espera já estamos em seus braços ou entre suas pernas. A culpa é doce e fácil de se acostumar, basta dár-lhe alguma atenção. Mas a culpa também é clichê e se esgota assim que a vivemos com intensidade, porque a culpa... ah... a culpa... só deseja cosciências virgens e pesadas. Após a leveza da confissão, quando se acostuma com ela, ela nos deixa e se vai como um malandro foge do casamento. Esse é o pior estágio: quando nem a culpa nos ampara.
Alguém viu minha culpa por aí?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os Coxos Dançam Sozinhos

Ao começar a ler Os Coxos Dançam Sozinhos (livro de José Prata) foi inevitável sentir uma certa suspeita se iria gostar ou não dessa leitura. Eu explico: ler uma história que se passa em Lisboa, sobre um detetive ficcional de policia, obviamente português (piadas a parte), e que não é apenas o detetive encarregado pelo crime, mas, também, o próprio autor desses crimes, me pareceu um tanto insólito.

Para minha sorte eu estava enganado. No entanto, a pesar de eu ter grandes amigos portugueses de tipos e aparências diversas, foi um tanto esquisito ao iniciar o livro, confesso, me livrar do estereótipo do português que temos aqui no Brasil, como aquele homenzinho gordinho e baixinho, usando um bigodão e avental. Essa descrição pobre que eu tinha dos patrícios entrou em conflito com as primeiras descrições do protagonista, como sendo um homem de músculos e com uma personalidade que lembra... mais ou menos... a do detetive Noir. Talvez essa dificuldade inicial de desconstruir um estereótipo do homem português tenha sido pela relação direta entre o livro (uma ficção) e meu imaginário, que trafegam em ruas paralelas as da minha visão sobre o “mundo real”. Em fim... vamos ao livro.

Essa é uma história contada pelo próprio protagonista, que é o inspetor Porto Brandão, responsável por descobrir quem está assassinando velhas senhoras gordas e loiras, a pontapé. Sendo que é ele próprio quem comete esses crimes, mas mascara a cena do crime levando as suspeitas para um grupo de negros chamados de “Gangue do Nike”, porque deixavam rastros de tênis nas poças de sangue. Lembro que suas descrições da forma como as vítimas eram encontradas são recheadas de piadinhas chistosas e irônicas. Logo nas primeiras linhas nos deparamos com a voz do protagonista: “Estou no quarto e não estou sozinho. À minha frente, deitada ao comprido, de barriga para baixo, está a velha que matei hoje de manhã. Bem morta, nua de todo, as banhas esparramadas pela alcatifa. Um mimo” (p. 13).

De fato, ele é uma personagem que vai cativando aos poucos por conta de sua forma irônica e chistosa de encarar as piores situações, como lidar com um tiro que levou na perna, por exemplo. Talvez aí esteja o ponto mais forte desse livro, a personalidade fria e ao mesmo tempo bem humorada do protagonista que, ao longo de uma narrativa entrecortada com os flashbacks da própria infância, vai mostrando que existe algo de errado, ou, pelo menos, esquisito, na sua psiquê. Esse detetive/vilão, no entanto, não está só. Depois da terceira vítima, outro assassino passa a compor a cena do crime, como que completando o trabalho deixado por Brandão. É aí que a história ganha um ar de suspense e mistério, típicos de uma boa história policial, mas com um toque contemporâneo e bem amarrado: a imprevisibilidade do por vir.

Curiosamente, não são as pistas deixadas ao longo da história principal, mas nos flashbacks, cuidadosamente dosados, que vamos percebendo aos poucos não só quem é realmente o inspetor Brandão, mas porque ele comete os crimes (um vínculo patológico ligado a um grande trauma) e quem é seu rival. Aliás, ao descrever os métodos usados pelo seu antagonista, percebemos o refinamento dessa personalidade perversa e irônica do Brandão, quando ele pensa “não lembro de ter costurado boca nenhuma – embora a idéia não seja isenta de poesia”(p. 14), ou, “Admito porém que o espécime estendido a minha frente era dos melhores, bem nutrido, palmas para o sacaninha [o antagonista]. Os pontapés foram científicos, o corte na jugular também. Agora, que reparo nisso, a incisão é perfeita, muito melhor do que as minhas. Vêm-me lágrimas aos olhos” (p. 51).

Os Coxos Dançam Sozinhos pode ser considerada uma história policial contemporânea por conta de seu desfecho em aberto, o crime foi solucionado, mas o verdadeiro enigma – a personalidade de Brandão – ainda está por se resolver, o que indica que as coisas não acabam por aí, se é que há cura para as patologias desse nível sem uma boa análise. Também há a narrativa fragmentada que permeia a história principal, sugerindo um lugar obscuro na mente do protagonista. Por fim, é possível perceber as grandes referências que a obra faz ao gênero policial estadunidense, como as camisas t-shirt, o blusão e óculos pretos e o ar “durão” do inspetor, que parecem muito mais uma forma paródica e irônica, do que uma mera relação com a produção estadunidense desse gênero. Quer se divertir? Então leia o José Prata.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A insustentável busca pelo prazer

De uma forma bem ampla, erotismo e pornografia poderiam ser quase sinônimos. Onde será que habitam suas fronteiras? Tentar determinar a diferença entre erotismo e pornografia pode nos levar a um caminho tão dúbio (se não delicado) quanto afirmar que nos limites do prazer está a necessidade, ou vice versa. O que leva a outra pergunta: onde termina o prazer e começa a necessidade? Em algumas situações seus limites são tão turvos que, aparentemente, não há nada que nos sinalize com precisão até onde podemos ir ou onde passamos de um para o outro. Ou, para citar Foucault:
"[Não há] Nada, também, que se assemelhe ao cuidado – tão característico da questão da carne ou da sexualidade – em revelar sob o inofensivo ou o inocente a presença insidiosa de uma potência de limites incertos e múltiplas máscaras (1984, p.38)".
Essas questões se agravam ainda mais quando pensamos nelas em um contexto urbano, nas relações desoladas e caóticas nos grandes centros urbanos, onde a solidão e o individualismo são protagonistas em um enredo envolvendo a busca insaciável de uma completude utópica. Uma busca que pode iniciar-se desde o voyeurismo incitado pela presença da menina no apartamento do outro lado da rua, sentada em seu sofá, usando mini-saia e mini-blusa, até a oferta abundante de sexo barato nas ruas da cidade, ou no sexo filantrópico entre velhos casais. Talvez, por essa razão, seja mais fácil começar essa monografia pela pornografia (tendo o prazer e a necessidade como referências), e, então, tentar encontrar o que pode distingui-la do erotismo.
É nesse sentido que sou levado às obras literárias de Rubem Fonseca e suas histórias de sexo e violência. Começarei com as palavras de uma pesquisadora da Unicamp sobre esse autor, Fernanda Cardoso, que publicou um artigo on-line intitulado Rubem Fonseca: violento, erótico e, sobretudo, solitário, onde ela afirma que:
"A abundância de possibilidades eróticas oferecidas pelas cidades dá a suas personagens a obsessão sexual como única alternativa ao vazio da existência, como se na satisfação física do desejo residisse a última certeza de que ainda se está vivo (2009)".
É nessa forma obsessiva de praticar o sexo como fuga, ou razão para viver, que pode estar o ponto de partida para começarmos a perceber a pornografia não como um desvio doentio, mas como a tentativa de uma pessoa encontrar a si mesma em meio a outras possibilidades de busca. Sendo assim, tudo que nos levar a esse caminho, na perspectiva da pornografia, pode ser válido.
Daí os diversos exemplos de práticas “não convencionais”, ou seja, tudo aquilo que a sociedade vê como amoral, mas que muitos, no fim, acabam fazendo porque seguem aos chamados do próprio prazer, ou porque simplesmente não distinguem muito bem os limites entre o permitido e o proibido, ou porque perpetuam velhas práticas de seus antepassados.
"Em todo caso, nada que se assemelhasse às longas listas de atos possíveis que serão encontrados nos penitenciais, nos manuais de confissão ou nos livros de psicopatologia; nenhum quadro que sirva para definir o legítimo, o permitido, ou o normal, e a descrever a vasta família dos gestos proibidos (FOUCAULT, 1984, p. 38)".
Nessa citação, Foucault se refere a falta de testemunho histórico ou reflexão prática dos gregos sobre o que eles entendiam a respeito da aphrodisia, “as obras”, “os atos de Afrodite”, segundo Suda e Hesíquio[1]; o que é compreensivo, já que se trata da deusa da beleza, arquétipo da sexualidade e sensualidade, e que, portanto, deve ter deixado os grandes pensadores ocidentais confusos ao tentarem racionalizar uma das coisas que temos de mais instintivo: o prazer; embora, segundo Foucault, não se tratava de confusão, mas de uma reserva em relação a expressão, que não fosse artística, dos atos sexuais. Essa citação acima se encaixa, também, na difícil busca de uma definição aos desvios sexuais, provocados pela sedução e pela sexualidade.
É preciso, porém, perceber que, para não ser um ato “doentio”, a busca pelo prazer exige o consenso de quem está envolvido/a. No entanto, isso nem sempre parece claro, como podemos perceber no conto O cobrador (1979)[2], onde o protagonista narra uma de suas investidas contra a sociedade que o deve: ele invade um apartamento se fazendo passar por um encanador (simbólica profissão), imobiliza a empregada e estupra a patroa, descrevendo, com um prazer perverso, todo o processo em detalhes. Ao final ele diz: “como já não tinha medo de mim, ou porque tinha medo de mim, gozou primeiro que eu” (RUBEM FONSECA, 1994, p. 498).
A pesar da barbárie que é um estupro, o que parecia brutal se torna, nesse caso, um elemento fetichizante, ou seja, o medo aparece aqui como um elemento necessário para despertar prazeres ocultos. Isso não quer dizer necessariamente que a vítima desejasse isso, mas que ela tenha percebido que pode haver outras formas de sentir prazer sexual, quer seja pela perda do domínio sobre o outro, quer seja pela brutalidade em si. Assim, podemos apontar para dois pontos importantes nesse ato: a ação dominante do perverso e a ação submissa da vítima, ambas como canais de prazer e busca pela satisfação.
Outra observação pode ser feita a respeito das relações sociais envolvidas nessa questão acima. Através de seu protagonista, Rubem Fonseca subverte as relações hegemônicas de poder ao colocar uma pessoa à margem da sociedade, com prazeres brutos e grotescos, irrompendo um espaço burguês (o apartamento da vítima) e tomando o controle do corpo dessa mulher que representa a classe dominante. Essa é também uma forma que o protagonista encontrou, além de assassinar casais ricos, para se rebelar contra a opressão dessa cidade controlada pelos interesses de uma classe burguesa que, para ele, é a responsável por seu infortúnio, e que agora ele vem cobrar o que ela o deve.
Desse modo, podemos perceber que por um lado existe o instinto, o desejo... as pulsões; por outro, a sociedade e todas as suas leis que imobilizam, regularizam, engessam essas pulsões. Como Foucault descreve as reações ao desejo liberto, em relação a tradição cristã, “[...] em nenhum lugar são expressas, como serão na espiritualidade cristã, as precauções necessárias a fim de impedir que o desejo se introduza sub-repticiamente na alma, ou a fim de desalojar seus vestígios secretos” (1984, p.39). É justamente em oposição a isso que surge os rompimentos dessas barreiras de contensão, como diques com pequenas infiltrações e fissuras que ameaçam sua estrutura, oposições essas que são encarnadas na personagem protagonista de O cobrador.
O uso de elementos narrativos, como uma personagem perversa que resolve cobrar da sociedade tudo o que lhe foi subtraído ou infligido, é um bom exemplo de como a literatura pode, de forma surpreendente, trazer à tona questões da realidade, incluindo as angustias causadas pela privação ou controle do sexo. De fato, Rubem Fonseca desenvolveu uma forma de produção literária que, de certo modo, parece ter estabelecido uma nova corrente na literatura brasileira contemporânea, apontada por Alfredo Bosi (em 1975) como brutalista. Em O cobrador, por exemplo, como em uma série de outros contos, Fonseca desenvolve sua narrativa de tal modo que desenvolvem-se personagens narradores de suas próprias histórias; protagonistas que parecem estar narrando para si mesmos seus próprios percalços, ou descrevendo a própria satisfação em desvelar um frágil estado de moral e civilidade social.

Por trás de uma produção literária poderemos, então, encontrar uma crítica a uma sociedade opressora do indivíduo e reguladora de seus prazeres; tudo sob o disfarce da narrativa de um crime cometido contra um casal que freqüentava lugares caros, ou através de um estupro. De fato, o que vem a tona, em suas obras, é o relato do cotidiano desumano das grandes cidades e, em convergência com isso, a exteriorização dos conflitos e dramas humanos despertos pela subversão da ordem. Rubem Fonseca nos apresenta, portanto, seu modo de narrar situações que são, claro, fictícias, mas que poderiam muito bem ser consideradas obras do cotidiano; algo que certamente acontece em algum beco ou rua das grandes cidades congestionadas por rostos anônimos.

[1] C.f. O uso dos prazeres, Michel Foucault (ver referências)
[2] Para essa análise usarei a edição de 1994.