segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

como que derrepente

Tua vulva
avulta
veludo
avulso
vai
vem
Aaaa...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Musa

Te vejo
Te desejo
Te venero
Te veneno

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

De passagem

Ele respira fundo, mas bem fundo mesmo, e, então, pula, fuuuvvv... Lembrava, durante seu vôo particular e intimo, muito intimo, da frase que colocara em um de seus vídeos: “O amor... é um salto sem redes”, o frio na barriga e bummm.
Livrara-se de todas as sentenças que o prendera durante todos aqueles anos, livrara-se de um ele que ele não suportava, mas que deixara crescer por conveniência e que agora ficara para trás. Agora era só ele, e só.

A água era salgada e deliciosamente fresca, e, estranhamente, lembrava os lábios dela no dia em que chorava seu amor, assim, abraçados, com os rostos colados, e felizes. O silêncio só o abraçava naquela ausência de peso, e exagero de cores. Seu coração agora batia mais calmo e foi numa espécie de lembrança uterina que ele se percebeu sorrindo, e foi assim que ele se percebeu indo. Pra onde, não importava. Gostou daquela luz que brilhava lá fora.

sábado, 20 de novembro de 2010

De súbito

Lembrou-se do seu pai. Lembrou-se da forma... da única forma que ele sabia expressar seu amor: com os pulsos cerrados direto no seu estômago.

O ventilador de teto sufocava seu choro com um zumbido monocórdico que começava a enlouquecê-lo. Resolveu acender um cigarro. Deu um longo trago. Terra quente sob os pés. Vento morno de verão. Expira... seriam anéis de fumaça, não fosse o vento.
Valery aparece por trás do segundo trago, explodindo em palavras. Imagens em sequência vertiginosa formavam-se em sua narrativa. Valery estava puta da vida.

sábado, 13 de novembro de 2010

Onde?

Minhas palavras se desfazem no ar seco dessa tarde ensolarada e quente, muito quente.
Minhas palavras dançam no ar, feito poeira, e seus sentidos já não fazem mais sentido.Tenho sentido o cheiro morno de sua ausência, mas só isso, no solstício de um ano qualquer, de mais uma série de meses enfileirados na linha tênue e dissonante de minhas memórias.

“Agora, o sol da tarde deita-se suavemente em suas varandas profundas; o incenso de Pot Pourri das pétalas caídas assombram a quietude”... Essas palavras ecoam em minha mente entorpecida pelo esquecimento, mas a paz bucólica da casa continua imutável. Então respiro o calor e expiro fumaça, anéis disformes que circundam a ausência de matéria. A ausência de Ma teria sido a última de suas inquietações, ou suas inquietações teriam sido a última de suas ausências. Não importa. O ar continuava morno.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Fragmento de um possível conto

D está deitado em sua cama, olhando para o teto e, pelo jeito que ele olha, não é difícil dizer que ele esteve assim a noite toda. A pálida luz da manhã, vazada pela cortina, se move delicadamente pelo quarto e vai ficando cada vez mais intensa, revelando um negro profundo embaixo dos seus olhos vermelhos.

D conta o tempo nas manchas que se formam em seu corpo, pelas marcas de sol, marcas de corte de estilete no braço, marcas vermelhas, pretas e brancas, que não estavam ali há alguns anos.


No lado esquerdo do guarda roupas só restava um grande vazio, que agora D contemplava à luz da manhã, sem perceber que o que o incomodava mesmo era um vazio ainda maior, que vinha de dentro de sua própria existência.

D então decide sair dali e vai até o quarto de sua filha de doze anos. Ela decidira realizar a labiríntica tarefa de costurar uma colcha, uma colcha de retalhos feitos das roupas da mãe. A primeira peça, que ela segura em uma das mãos, é um pedaço do vestido que a mãe usava na tarde que desaparecera: um pedaço de tecido estampado com delicadas violetas. Seus olhos parecem dois lagos negros e profundos prestes a transbordar. “Nunca vi tamanha dor em um rosto tão jovem”, pensou D, com espanto, ao ver a filha caída ao chão entre um confuso ninho de tecidos...

domingo, 11 de julho de 2010

Diálogos

A GAROTA: Tem pó de insenso no chão.
O RAPAZ: É, eu vi.
A GAROTA: Sabia que passei pano na casa?!
O RAPAZ: É?...
A GAROTA: Era!
O RAPAZ: Isso é um passado simples ou um presente perfeito?
A GAROTA: Isso é uma merda perfeita.
O AMIGO: vamos tomar um gim?
A GAROTA: tô nessa!
O RAPAZ: também.
O AMIGO: mas nós bem que poderíamos encontrar a Alice antes.
A GAROTA: que Alice?!
O RAPAZ: a do País da Maravilhas, sacou?
A GAROTA: hummmm... legal.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Como que por acaso

Eram oito horas de uma manhã meio cinzenta de segunda-feira. Apolônio estava remexendo os clipes em cima de sua mesa, próximo a janela daquele escritório no décimo andar de um prédio dos anos 70 em algum lugar no centro da cidade, já esboçando algum tipo de pensamento abstrato, quando se deu conta de que não era permitido pensar.

Olhou em volta como que pedindo desculpas, mas tudo que viu foi rostos sem expressão, invólucros de fluidos amnióticos contidos, debruçados sobre pequenos mundos estéreis. Era exatamente um desses mundos estéreis (tabelas, estatísticas, ações jurídicas) que ele tinha embaixo dos clipes. Isso o fez sentir um estranho formigamento nas pernas que foi logo chegando às pontas dos dedos e que já o mergulhava em um estado de dormência e desespero. Na verdade, o que ele sentia era a textura insólita de algum delírio, como se nada fosse mais palpável ou feito de qualquer tipo de matéria. Apolônio sentiu seu corpo cada vez mais submerso nesse estado etéreo, onde os vultos das pessoas se confundiam com o zumbido de uma mosca se afogando no copinho de café. Então, num impulso, pegou sua MontBlanc (que foi dada pelo chefe dias atrás como reconhecimento de sua dedicação e lealdade à empresa) e atravessou a mão esquerda, sentindo cada nervo, cada veia, cada camada de pele se dilacerando. A princípio, ficou deslumbrado com o roxo quase púrpura, vindo da mistura do sangue com a tinta azul da caneta; ficou também encantado com as diversas expressões que conseguiu criar nos rostos quase sem bocas, olhos e narizes, que eram os das pessoas do escritório. Correu por sobre as mesas em direção às janelas e passou a mão, já sem a MontBlanc, sobre elas, criando uma espécie de filtro vermelho na luz que inundava o ambiente.
A essa altura, depois de tantos grunhidos e sussurros por parte dos que trabalhavam ali, aparece o chefe, resto de carne no dente quase no fim da boca, suor que escorria pelo rosto e criava grandes rodelas embaixo do braço (a pesar do ar condicionado). Ele se aproxima de Apolônio como a polícia em manifestações públicas, olhar inquisidor. Apolônio para por um instante com os movimentos frenéticos que dominavam todo seu corpo e olha o chefe com profunda compaixão, como se tivesse entendido tudo, quem ele era quem era o outro, o que fazia ali, qual o sentido da vida e todo o propósito de sua existência. Olhou bem fixo nos olhos do chefe, olhou bem fixo para o vermelho do rubi no anel entre os dedos gordos do chefe, fez um paralelo lúdico entre os tons de vermelho, olhou de novo para o chefe (agora com olhar malicioso), lhe deu um beijo na boca e o jogou pela janela.

Tudo que se sabe depois disso é que, enquanto todos lamentavam pelo poodle que havia sido esmagado pela enorme massa corpórea do chefe, Apolônio seqüestrou a secretária e fugiu no carro blindado da empresa para algum lugar no Pantanal.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O espelho oco

Lá na velha casa havia um espelho grande e de moldura trabalhada em madeira grossa, que ficava no canto da sala colonial, filtrado pela luz âmbar do cômodo. Esse era o objeto que ela mais gostava naquela velha casa, e era em frente a ele que ela passava grande parte de seu dia. Às vezes, tarde da noite, quando todos dormiam, ela se despia e ficava admirando seu corpo pálido como se o sol jamais o houvesse tocado, em contraste com o negro de seus olhos e cabelos. Ela tocava a imagem com suas mãos delicadas e jovens.

Em um desses dias, porém, ela teve a terrível notícia da morte de sua filha. “Complicações no parto”, disseram os médicos carniceiros do único hospital das redondezas, “não resistiu”. Essa notícia a deixou tão triste que não conseguiu ir ao espelho naquele dia. Duas manhãs seguintes, já conformada com a dor, ela levantou da cama. Era uma manhã de junho, chuvosa e fria. Ao chegar mais próximo do espelho, ela começou a vislumbrar a própria silhueta esbelta e bonita se formando na superfície daquele objeto tão onipresente e tão íntimo. Mas um calafrio tomou conta de seu corpo ao mesmo tempo que uma rajada de vento entrou em fúria pela janela da sala e derrubou o espelho no chão. Das profundezas de suas supertições ela pensa “Sete anos de azar...?”. Mas, para seu espanto, não havia no chão um caco de vidro sequer. Na verdade, não havia nada entre a moldura e o fundo de madeira. Confusa, ela passou a mão por sobre a superfície de madeira onde deveria estar o vidro, na tentativa de entender o que acontecera com o espelho, com seu reflexo.

Foi quando ela percebeu uma mão estranha sobre o fundo do espelho: as unhas estavam quebradiças, carcomidas e sujas, sustentadas por dedos tortos que compunham uma mão enrugada e cheia de manchas. Ela foi seguindo os olhos pelo braço até que olhou para o próprio corpo nu. Atônita e ainda mais confusa, ela percebe seus seios murchos e caídos por cima de uma barriga flácida e um corpo envelhecido.

Nesse momento, uma estranha luz ofusca aquele ambiente agora branco e cheio de camas, que ela percebe ao voltar o olhar para trás. O cheiro de urina velha contamina o ar e a faz sentir náuseas, uma vertigem furtiva que ela experimenta ao notar outras mulheres por ali, descabeladas e falando consigo mesmas. Uma enfermeira se aproxima e pega gentilmente seu braço esquerdo, a levando do canto do cômodo para sua cama, onde ela reconhece um álbum de recordações sobre uma mesinha ao lado. Ao folheá-lo ela se vê ao lado de um homem maduro, bonito, mas austero. “Meu marido”, pensou.

Em um segundo lembrou-se de como o conheceu, de seu casamento e da chaleira com água fervendo, que segurava nas mãos, anos depois de casarem. Ela o havia assassinado, despejando a água fervendo em um de seus ouvidos. “Ciúmes”, disse baixinho, “esse veneno que corre no sangue e aniquila a razão”. Na página seguinte ela vê a foto de um bebê, seguida de fotos desse bebê já grande e que se transformou em uma linda menina. “Minha filha?!”, suspira com voz trêmula. As últimas fotos são do casamento da filha com um rapaz jovem, também bonito e austero.

O álbum guarda, no final, uma linda fita de cetim púrpura. A cor cintila em suas mãos e transforma aquele branco insípido do cômodo em uma grande alegria. Teve vontade de fazer uma trança e amarrá-la com a fita. Com sua bela trança, saiu correndo pelo campo de margaridas, saltitando feliz entre o púrpura e o amarelo. Em seu pulso trazia uma pulseira de flores, que contrastava com a delicada pele de seu braço de menina. Ela corria alegre nesse mar amarelo, rumo ao pôr do sol...

sábado, 15 de maio de 2010

Sobre o tempo que nos separa

Tic, tac, tic, tac... sete horas. Uma leve descarga elétrica sobe por entre seus seios gloriosamente simétricos. De lá... do seu quarto... do fim do corredor... ela podia ouvir, sentir, o tilintar, o penetrar das chaves do lado de fora da porta da frente, quase como um eco. A chave entrando suavemente, tão íntima e tão certa na fechadura que parecia não haver nada mais perfeito. O tempo que isso levava pulsava em eternos segundos. Ela imaginava... não.. ela sentia, isso! ela sentia mesmo o girar da chave na fechadura tão lubrificada que facilitava o movimento de cada pino daquela engrenagem complexa e por isso perfeita, que hora trancava hora a libertava daquele universo também complexo que se confundia entre casa e casamento, sofrimento, destino, placidez. Cada pino que libertava a engrenagem da fechadura libertava a porta de sua moldura, libertava também os anseios e os impulsos elétricos que a deixavam levemente tonta. Sim... ela sentia o suntuoso toque da chave no interior secreto da porta, libertando suas trancas. Quase como um eco, quase eterno, quase livre, livre, livre mesmo que às custas de um inevitável arrombamento, mas não, não... tinha que ser suave, tinha que ser de direito à esquerdo, como a suave dança da chave. Pela permissividade da porta que, em fim, se abre.
Então Adamastor surge, rompendo o ar viciado da casa, com seus braços peludos, bigode português, óculos Ray ban e um cheiro de suor misturado com o que restava do desodorante. Era isso, exatamente esse cheiro que chegava primeiro ao seu quarto e lhe fazia os pelos ouriçarem. Era uma inexplicável ansiedade que lhe deixava as orelhas vermelhas, os lábios vermelhos e as entranhas pulsando descontroladamente.