sábado, 29 de janeiro de 2011

Olhos de Clarice (parte 2)

Izabella de certa forma salvara D de uma atitude drástica, talvez a mais drástica e, consequentemente, a última que ele tomaria em sua vida.

D trabalhava em um emprego ordinário e tinha uma vida ordinária. Por ser tão ordinária ele resolveu, então, por fim nela. Pensou em uma arma de fogo, um tiro direto na têmpora ou por dentro da boca, como vira nos filmes, e seria com um revolver. Até tinha onde conseguir um, baratinho, com um desses policiais corruptos que se oferecem para apagar alguém nas horas vagas. Mas pensou melhor e concluiu que o estampido do tiro ecoaria em sua morte, em sua pós existência eterna, ou, se preferir, em sua vida após a morte. Daí percebeu que se ele já não acreditava nessa vida, que sentido haveria em acreditar em uma vida após a morte?

Em todo caso, por via das dúvidas, resolveu mudar de estratégia. Cortaria os pulsos, isso, sua vida se esvaziaria aos poucos, e como achava que sua vida não era lá muita coisa, talvez fosse até rápido. Como foi que lhe falaram outro dia? “Há dois jeitos de cortar os pulsos: um é o caminho para o hospital, e o outro é o do cemitério. O do hospital era um corte na horizontal, daqueles que só os histéricos fazem; o do cemitério começa no punho e vai até onde der.” Cemitério, então. Lembrou-se que detestava cemitérios, mas não importava mais.

Esterilizou a lâmina, não sabia ao certo porque, talvez só por hábito, ou talvez porque não queria ter nenhum tétano como seqüela pós-morte. Em fim, só faltava mais uma coisa: um texto de despedida, sabe? Só para deixar algo nesse mundo e pelo menos isso ele queria fazer bem feito, como manda o figurino de um bom suicida. Exitou um pouco. Gostava de contar histórias, mas sempre teve medo de escrever, ou melhor, de ter suas coisas lidas por outra pessoa. Mas, o que importava agora a final? Não iria se preocupar mesmo com as críticas futuras.

Ao tocar no mouse a tela se desnuda de seu descanso, peixinhos ridículos nadando nos leds. Foi aí que veio sua surpresa. Havia um blog lá, um blog que ele havia acessado no momento que decidira se matar, mas que não chegara a dar atenção porque já havia tomado essa decisão drástica. Nesse momento, no entanto, algo chamou sua atenção, o nome do blog é “Réquiem para um ninguém”. Achou curioso, irônico, mas sem graça. Enfim, esquentou a lâmina, a encostou logo abaixo do punho e... não conseguiu. Aquele blog o despertara a mais profunda e intrigante curiosidade. “Que merda!”, pensou.

Era o blog de uma garota. Pelo menos achava que era uma garota, mas qualquer um podia fazer um blog e se identificar como “Izabella”. Ele mesmo já havia pensado em criar um blog sob um pseudônimo feminino, só para sacanear com os tarados virtuais.

Começou a ler as primeiras linhas:

“Sempre achei ridículo essa mania de suicídio. Que coisa mais cafona, desistir justamente quando as coisas começam a fazer sentido?! Para que servem os problemas se não para nos tirar do tédio de nossas vidas?”

D não acreditou no que estava lendo. “Mas que guriazinha mais pretensiosa! Isso se for uma guriazinha. Vai ver que é uma daquelas dondocas que não fazem nada da vida e ficam se entupindo com livros de auto-ajuda. Uma mulherzinha que já tem a vida ganha e fica aí, querendo dar uma de boa samaritana. Vagabunda.” D costumava ser mais polido com as pessoas e raramente se irritava com os outros. Mas essa ele não agüentou. Logo no momento mais frágil e decisivo de sua futura ex-vida. Resolve continuar lendo, só de pirraça:

“Prefiro mil vezes a companhia de um hipócrita a de um pretendente ao suicídio, desses com pena de si mesmos só para chamar a atenção e ser paparicado. Odeio esses fracotes!”

Ahhhh, por que, por que que ele foi continuar a ler isso? Agora D já estava tomado pelo mais puro e glorioso ódio. Podia até sentir a veia de sua têmpora (que ele havia, inclusive, pensado em explodir, minutos atrás) pulsando em extremo frenesi. “Quem é essa fulana?!”, pensou e começou a procurar o link que revelaria seu perfil. Achou e, por sorte, talvez, lá estava seu e-mail para comentários.

(continua)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Olhos de Clarice

A mancha deixada pelo calor de sua mão ainda estava no vidro da janela, quando o ônibus já se afastava. Isabella era agora apenas um borrão no horizonte. Mais tarde se lembraria dessa imagem com detalhes imprecisos: não lembraria ao certo se seu perfume era jasmim ou lavanda, nem se seu vestido deixava seus ombros nus. Ela havia sussurrado “amor” ou apenas “dor”? A única coisa que lembrava mesmo era dos olhos dela, do jeito como olhava e falava com seus olhos.

Também não sabia, naquele momento, para onde estava realmente indo. Pegou o primeiro ônibus para o sul, para o mais distante sul que seu dinheiro poderia pagar. E foi, levando consigo seu livro favorito, uma câmera fotográfica e algumas roupas. Precisava fazer isso, precisava estancar aquele amor que o destruía por dentro e que, sabia, destruiria muito mais se ficasse. Lamentaria, algumas semanas depois, a estupidez de tal pensamento ao perceber como estava errado; que um amor como aquele não se acaba nem nos deixa esquecer o que quer que seja.

Em todo caso, ele se foi. Poderia ter pego um avião, mas seria um distanciamento demasiado rápido e temia que não houvesse tempo para seu espírito perceber que partira. Lembrou-se que havia lido em algum lugar que, em uma expedição no Peru (talvez fosse em outro canto), os nativos paravam de quando em vez na subida da montanha. Ao serem interrogados por um viajante apressado, eles responderam: “se subirmos muito rápido, nossos espíritos não terão tempo de nos acompanhar e se perderão”. Foi assim que ele decidiu ir à rodoviária e partir, como partiria muitas vezes depois de um lugar para outro. Sem destino, sem espírito, sem fim. Mas, naquele momento, era preciso ir se desfazendo daquilo, dele mesmo, aos poucos. Uma morte lenta e dolorosa, mas uma morte digna de seu amor. Se foi covarde, isso só o tempo e os motivos que contarei poderão provar o contrário.
Essa é a história de D.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

como que derrepente

Tua vulva
avulta
veludo
avulso
vai
vem
Aaaa...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Musa

Te vejo
Te desejo
Te venero
Te veneno

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

De passagem

Ele respira fundo, mas bem fundo mesmo, e, então, pula, fuuuvvv... Lembrava, durante seu vôo particular e intimo, muito intimo, da frase que colocara em um de seus vídeos: “O amor... é um salto sem redes”, o frio na barriga e bummm.
Livrara-se de todas as sentenças que o prendera durante todos aqueles anos, livrara-se de um ele que ele não suportava, mas que deixara crescer por conveniência e que agora ficara para trás. Agora era só ele, e só.

A água era salgada e deliciosamente fresca, e, estranhamente, lembrava os lábios dela no dia em que chorava seu amor, assim, abraçados, com os rostos colados, e felizes. O silêncio só o abraçava naquela ausência de peso, e exagero de cores. Seu coração agora batia mais calmo e foi numa espécie de lembrança uterina que ele se percebeu sorrindo, e foi assim que ele se percebeu indo. Pra onde, não importava. Gostou daquela luz que brilhava lá fora.

sábado, 20 de novembro de 2010

De súbito

Lembrou-se do seu pai. Lembrou-se da forma... da única forma que ele sabia expressar seu amor: com os pulsos cerrados direto no seu estômago.

O ventilador de teto sufocava seu choro com um zumbido monocórdico que começava a enlouquecê-lo. Resolveu acender um cigarro. Deu um longo trago. Terra quente sob os pés. Vento morno de verão. Expira... seriam anéis de fumaça, não fosse o vento.
Valery aparece por trás do segundo trago, explodindo em palavras. Imagens em sequência vertiginosa formavam-se em sua narrativa. Valery estava puta da vida.

sábado, 13 de novembro de 2010

Onde?

Minhas palavras se desfazem no ar seco dessa tarde ensolarada e quente, muito quente.
Minhas palavras dançam no ar, feito poeira, e seus sentidos já não fazem mais sentido.Tenho sentido o cheiro morno de sua ausência, mas só isso, no solstício de um ano qualquer, de mais uma série de meses enfileirados na linha tênue e dissonante de minhas memórias.

“Agora, o sol da tarde deita-se suavemente em suas varandas profundas; o incenso de Pot Pourri das pétalas caídas assombram a quietude”... Essas palavras ecoam em minha mente entorpecida pelo esquecimento, mas a paz bucólica da casa continua imutável. Então respiro o calor e expiro fumaça, anéis disformes que circundam a ausência de matéria. A ausência de Ma teria sido a última de suas inquietações, ou suas inquietações teriam sido a última de suas ausências. Não importa. O ar continuava morno.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Fragmento de um possível conto

D está deitado em sua cama, olhando para o teto e, pelo jeito que ele olha, não é difícil dizer que ele esteve assim a noite toda. A pálida luz da manhã, vazada pela cortina, se move delicadamente pelo quarto e vai ficando cada vez mais intensa, revelando um negro profundo embaixo dos seus olhos vermelhos.

D conta o tempo nas manchas que se formam em seu corpo, pelas marcas de sol, marcas de corte de estilete no braço, marcas vermelhas, pretas e brancas, que não estavam ali há alguns anos.


No lado esquerdo do guarda roupas só restava um grande vazio, que agora D contemplava à luz da manhã, sem perceber que o que o incomodava mesmo era um vazio ainda maior, que vinha de dentro de sua própria existência.

D então decide sair dali e vai até o quarto de sua filha de doze anos. Ela decidira realizar a labiríntica tarefa de costurar uma colcha, uma colcha de retalhos feitos das roupas da mãe. A primeira peça, que ela segura em uma das mãos, é um pedaço do vestido que a mãe usava na tarde que desaparecera: um pedaço de tecido estampado com delicadas violetas. Seus olhos parecem dois lagos negros e profundos prestes a transbordar. “Nunca vi tamanha dor em um rosto tão jovem”, pensou D, com espanto, ao ver a filha caída ao chão entre um confuso ninho de tecidos...

domingo, 11 de julho de 2010

Diálogos

A GAROTA: Tem pó de insenso no chão.
O RAPAZ: É, eu vi.
A GAROTA: Sabia que passei pano na casa?!
O RAPAZ: É?...
A GAROTA: Era!
O RAPAZ: Isso é um passado simples ou um presente perfeito?
A GAROTA: Isso é uma merda perfeita.
O AMIGO: vamos tomar um gim?
A GAROTA: tô nessa!
O RAPAZ: também.
O AMIGO: mas nós bem que poderíamos encontrar a Alice antes.
A GAROTA: que Alice?!
O RAPAZ: a do País da Maravilhas, sacou?
A GAROTA: hummmm... legal.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Como que por acaso

Eram oito horas de uma manhã meio cinzenta de segunda-feira. Apolônio estava remexendo os clipes em cima de sua mesa, próximo a janela daquele escritório no décimo andar de um prédio dos anos 70 em algum lugar no centro da cidade, já esboçando algum tipo de pensamento abstrato, quando se deu conta de que não era permitido pensar.

Olhou em volta como que pedindo desculpas, mas tudo que viu foi rostos sem expressão, invólucros de fluidos amnióticos contidos, debruçados sobre pequenos mundos estéreis. Era exatamente um desses mundos estéreis (tabelas, estatísticas, ações jurídicas) que ele tinha embaixo dos clipes. Isso o fez sentir um estranho formigamento nas pernas que foi logo chegando às pontas dos dedos e que já o mergulhava em um estado de dormência e desespero. Na verdade, o que ele sentia era a textura insólita de algum delírio, como se nada fosse mais palpável ou feito de qualquer tipo de matéria. Apolônio sentiu seu corpo cada vez mais submerso nesse estado etéreo, onde os vultos das pessoas se confundiam com o zumbido de uma mosca se afogando no copinho de café. Então, num impulso, pegou sua MontBlanc (que foi dada pelo chefe dias atrás como reconhecimento de sua dedicação e lealdade à empresa) e atravessou a mão esquerda, sentindo cada nervo, cada veia, cada camada de pele se dilacerando. A princípio, ficou deslumbrado com o roxo quase púrpura, vindo da mistura do sangue com a tinta azul da caneta; ficou também encantado com as diversas expressões que conseguiu criar nos rostos quase sem bocas, olhos e narizes, que eram os das pessoas do escritório. Correu por sobre as mesas em direção às janelas e passou a mão, já sem a MontBlanc, sobre elas, criando uma espécie de filtro vermelho na luz que inundava o ambiente.
A essa altura, depois de tantos grunhidos e sussurros por parte dos que trabalhavam ali, aparece o chefe, resto de carne no dente quase no fim da boca, suor que escorria pelo rosto e criava grandes rodelas embaixo do braço (a pesar do ar condicionado). Ele se aproxima de Apolônio como a polícia em manifestações públicas, olhar inquisidor. Apolônio para por um instante com os movimentos frenéticos que dominavam todo seu corpo e olha o chefe com profunda compaixão, como se tivesse entendido tudo, quem ele era quem era o outro, o que fazia ali, qual o sentido da vida e todo o propósito de sua existência. Olhou bem fixo nos olhos do chefe, olhou bem fixo para o vermelho do rubi no anel entre os dedos gordos do chefe, fez um paralelo lúdico entre os tons de vermelho, olhou de novo para o chefe (agora com olhar malicioso), lhe deu um beijo na boca e o jogou pela janela.

Tudo que se sabe depois disso é que, enquanto todos lamentavam pelo poodle que havia sido esmagado pela enorme massa corpórea do chefe, Apolônio seqüestrou a secretária e fugiu no carro blindado da empresa para algum lugar no Pantanal.