domingo, 11 de julho de 2010
Diálogos
O RAPAZ: É, eu vi.
A GAROTA: Sabia que passei pano na casa?!
O RAPAZ: É?...
A GAROTA: Era!
O RAPAZ: Isso é um passado simples ou um presente perfeito?
A GAROTA: Isso é uma merda perfeita.
O AMIGO: vamos tomar um gim?
A GAROTA: tô nessa!
O RAPAZ: também.
O AMIGO: mas nós bem que poderíamos encontrar a Alice antes.
A GAROTA: que Alice?!
O RAPAZ: a do País da Maravilhas, sacou?
A GAROTA: hummmm... legal.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Como que por acaso
Olhou em volta como que pedindo desculpas, mas tudo que viu foi rostos sem expressão, invólucros de fluidos amnióticos contidos, debruçados sobre pequenos mundos estéreis. Era exatamente um desses mundos estéreis (tabelas, estatísticas, ações jurídicas) que ele tinha embaixo dos clipes. Isso o fez sentir um estranho formigamento nas pernas que foi logo chegando às pontas dos dedos e que já o mergulhava em um estado de dormência e desespero. Na verdade, o que ele sentia era a textura insólita de algum delírio, como se nada fosse mais palpável ou feito de qualquer tipo de matéria. Apolônio sentiu seu corpo cada vez mais submerso nesse estado etéreo, onde os vultos das pessoas se confundiam com o zumbido de uma mosca se afogando no copinho de café. Então, num impulso, pegou sua MontBlanc (que foi dada pelo chefe dias atrás como reconhecimento de sua dedicação e lealdade à empresa) e atravessou a mão esquerda, sentindo cada nervo, cada veia, cada camada de pele se dilacerando. A princípio, ficou deslumbrado com o roxo quase púrpura, vindo da mistura do sangue com a tinta azul da caneta; ficou também encantado com as diversas expressões que conseguiu criar nos rostos quase sem bocas, olhos e narizes, que eram os das pessoas do escritório. Correu por sobre as mesas em direção às janelas e passou a mão, já sem a MontBlanc, sobre elas, criando uma espécie de filtro vermelho na luz que inundava o ambiente.
Tudo que se sabe depois disso é que, enquanto todos lamentavam pelo poodle que havia sido esmagado pela enorme massa corpórea do chefe, Apolônio seqüestrou a secretária e fugiu no carro blindado da empresa para algum lugar no Pantanal.
terça-feira, 25 de maio de 2010
O espelho oco
Em um desses dias, porém, ela teve a terrível notícia da morte de sua filha. “Complicações no parto”, disseram os médicos carniceiros do único hospital das redondezas, “não resistiu”. Essa notícia a deixou tão triste que não conseguiu ir ao espelho naquele dia. Duas manhãs seguintes, já conformada com a dor, ela levantou da cama. Era uma manhã de junho, chuvosa e fria. Ao chegar mais próximo do espelho, ela começou a vislumbrar a própria silhueta esbelta e bonita se formando na superfície daquele objeto tão onipresente e tão íntimo. Mas um calafrio tomou conta de seu corpo ao mesmo tempo que uma rajada de vento entrou em fúria pela janela da sala e derrubou o espelho no chão. Das profundezas de suas supertições ela pensa “Sete anos de azar...?”. Mas, para seu espanto, não havia no chão um caco de vidro sequer. Na verdade, não havia nada entre a moldura e o fundo de madeira. Confusa, ela passou a mão por sobre a superfície de madeira onde deveria estar o vidro, na tentativa de entender o que acontecera com o espelho, com seu reflexo.
Foi quando ela percebeu uma mão estranha sobre o fundo do espelho: as unhas estavam quebradiças, carcomidas e sujas, sustentadas por dedos tortos que compunham uma mão enrugada e cheia de manchas. Ela foi seguindo os olhos pelo braço até que olhou para o próprio corpo nu. Atônita e ainda mais confusa, ela percebe seus seios murchos e caídos por cima de uma barriga flácida e um corpo envelhecido.
Nesse momento, uma estranha luz ofusca aquele ambiente agora branco e cheio de camas, que ela percebe ao voltar o olhar para trás. O cheiro de urina velha contamina o ar e a faz sentir náuseas, uma vertigem furtiva que ela experimenta ao notar outras mulheres por ali, descabeladas e falando consigo mesmas. Uma enfermeira se aproxima e pega gentilmente seu braço esquerdo, a levando do canto do cômodo para sua cama, onde ela reconhece um álbum de recordações sobre uma mesinha ao lado. Ao folheá-lo ela se vê ao lado de um homem maduro, bonito, mas austero. “Meu marido”, pensou.
Em um segundo lembrou-se de como o conheceu, de seu casamento e da chaleira com água fervendo, que segurava nas mãos, anos depois de casarem. Ela o havia assassinado, despejando a água fervendo em um de seus ouvidos. “Ciúmes”, disse baixinho, “esse veneno que corre no sangue e aniquila a razão”. Na página seguinte ela vê a foto de um bebê, seguida de fotos desse bebê já grande e que se transformou em uma linda menina. “Minha filha?!”, suspira com voz trêmula. As últimas fotos são do casamento da filha com um rapaz jovem, também bonito e austero.
O álbum guarda, no final, uma linda fita de cetim púrpura. A cor cintila em suas mãos e transforma aquele branco insípido do cômodo em uma grande alegria. Teve vontade de fazer uma trança e amarrá-la com a fita. Com sua bela trança, saiu correndo pelo campo de margaridas, saltitando feliz entre o púrpura e o amarelo. Em seu pulso trazia uma pulseira de flores, que contrastava com a delicada pele de seu braço de menina. Ela corria alegre nesse mar amarelo, rumo ao pôr do sol...
sábado, 15 de maio de 2010
Sobre o tempo que nos separa
sábado, 24 de abril de 2010
Silêncio
De semente que não rompe a terra
De luzes sem brilho
Aguardo em silêncio e com mãos crispadas
Repouso minhas costas no abacateiro e espero uma folha cair
Ela cai
Mas você não chega
Seu perfume não perverte esse ar que agora cheira a nada
Sem você esse vermelho não faz sentido
A música é sem som
E a beleza dorme
sexta-feira, 16 de abril de 2010
... ainda continua
Luiz é dos angolanos que sofreram preconceito por serem brancos. Por conta disso teve que fugir de sua pátria com sua família, chegando ainda muito pequeno ao Brasil, mas logo conheceu seu destino quando seu pai foi levado pelas mãos resolutas da fatalidade. A única coisa que herdou do pai foram os seus livros de história e de literatura, e aos dezesseis anos teve que ir trabalhar para ajudar a mãe. Seus gestos precisos e elegantes, porém, revelavam alguma nobreza que parecia vir naturalmente de seus antepassados. Seus olhos quase verdes e a postura firme de um rapaz ccom seus vinte anos lhe confirmavam a elegância e uma sensualidade sutil, que só quem se aproximava de seu mundo é que conseguia realmente perceber sua intensidade.
- ... mais uma noite à caça, hein? Cuidado, porque qualquer dia desses é você que pode estar nesse prato com fritas.
Mathieu entendia os perigos da noite, mas preferia estar com as almas perdidas dos boêmios do Paradoxo, do que viver em função do medo. “Essas são criaturas da noite, assim como eu”, pensava entre um ronronar e outro, ao fim do frio filé com fritas. Entre essas criaturas estava Vitor, um jornalista que sempre aparecia por lá, logo cedo na noite, e que trazia algo de misterioso em seu olhar. Vitor parecia ter percebido a enfermidade que a beleza causa nos olhos dos mediocres.
***
II.
Vísceras
Os segundos pareciam respirar ofegantes, enquanto os minutos os fitavam com olhares maliciosos. O tempo desobrigava-se de si próprio e aquela manhã, quando a rua, os prédios e todo o espaço ia se dilatando à medida que o sol esquentava e diluía o frio hesitante de junho, seria uma manhã de segunda-feira como todas as outras, se não fosse a náusea que me cercava vertiginosamente.
Acordei inquieto, sentindo em meu corpo um suave descompasso. “O oxigênio arde no nariz”, tenho sempre essa sensação quando saio de casa, “todas essas pessoas... parecem deixar para trás o odor de suas almas atormentadas...”. Havia percebido o sorriso efêmero das coisas; havia percebido o sorriso dos céticos em meus lábios.
III.
Vazio
- Qual é seu telefone?- pergunta quase irritada a secretária.
- Você já não o tem? – responde Ester, sinicamente.
“Esse é um daqueles dias em que toda aridez do cotidiano reivindica seu legado”, pensou Ester com um cigarro em uma mão e o comprovante de residência na outra. “Já não basta ter de saber exatamente quem sou, ainda tenho que comprovar onde estou? Merda!”. A voz seca e dissonante da secretária confirma sua existência e Ester desliga o telefone com uma sensação de que pelo menos algo em sua vida pode ser resolvido. Agora, só restava a vida.
Ester, conhecida como “a mulher de Vitor” é, de fato, uma psicanalista revoltada com o silêncio de “um velho que descola uma grana pra não falar nada!”, era o que ela sempre dizia sobre seu analista, o velho mestre de seu grupo de estudos sobre análises das pulsões contemporâneas. Ester tinha algo de inacabado, de uma beleza sólida e misteriosa. Ester era, sem dúvida, a instabilidade mais certa que poderia inspirar qualquer sensação de segurança na mais descrente das pessoas. Ester era o equivalente a uma suave digressão a uma realidade utópica ou, se preferir, um mórbido estado de segurança.
sábado, 10 de abril de 2010
... continuação
Mathieu, como passou a se chamar após ter visto esse nome nas páginas de um livro jogado ao chão, observava da janela, já saciado, os pássaros retirando-se rumo ao pôr do sol. Dona Maria surge entre seus devaneios que seguiam os pássaros, pegando e guardando o livro na estante do quarto de leitura. Nesse movimento deu para ver o título: “Idade da razão”.
O quarto de leitura é o espaço da casa mais intrigante. É dele que os bigodes/antenas de Mathieu percebem uma espécie de energia estática, um magnetismo presente, que vem, mais especificamente, daqueles objetos na parede que Dona Maria chama de “livros”. Foi por conta de um desses que “Chiquinho” (não sabe porque o chamavam assim) passou a se perceber como “Mathieu”. Não se importava com isso, na verdade. Apenas experimentava o som das palavras por curiosidade. Como um gato consegue ler é um dos acasos obscuros que surgem das comunicações silenciosas entre os seres.
Ao voltar a atenção para janela a luz difusa do lusco-fusco anunciava a noite, e quando a noite chega, em fim, as pupilas já não se contraem diante de uma luz dolorosamente limpa, e os telhados não queimam mais sob as patas. Por uma perspectiva, a cidade parece muito mais misteriosa e receptiva, emitindo seus sons e cheiros que vem, principalmente, de baixo das telhas. Uma telha quebrada era um apelo ao voyerismo, que Mathieu, timidamente, dispensava alguma atenção. Frestas, vidros, vãos entre os bares da cidade pareciam o lugar ideal para encontrar comida. Seu lugar favorito, no entanto, era a cozinha do “Paradoxo”, bar onde ele encontrava Luiz, um assistente de cozinha que, vez em quando, ia fumar um cigarro no depósito dos fundos. Foi assim que se conheceram, Mathieu chegando por entre as latas, Luiz fumando um cigarro e um prato com restos de filé com fritas entre eles.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Urbanus
Vermelho... nada...vermelho... nada... vermelho... na... da.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Funeral Blues (W.H. Auden) - Fragmento
Evitem o latir do cachorro com um osso suculento
Silenciem os pianos e, com tambores surdos, tragam o caixão
Deixem as carpideiras virem
[...]
As estrelas não são desejadas agora,
apaguem todas, empacotem a lua e
desmontem o sol
Deságuem o oceano e varram as árvores
Pois agora nada mais servirá
sábado, 6 de março de 2010
I. Vácuo
Dona Maria se agacha e acende o pequeno fogareiro improvisado com uma lata de leite. O carvão inicia sua lenta transformação do preto para o vermelho e, depois de um tempo, branco.
A Carapeba arde sobre a grelha e começa a estalar, como se despedindo dessa realidade ou amaldiçoando seu estado que se ia no vento do abanador. Nome interessante para um objeto que justamente fazia o fogo arder.
No céu, o canto de um pássaro desconcentra o silêncio daquela tarde insólita... o tempo parecia redundante, em círculos, andando sobre o mesmo lugar e sem sair dele.
Sigo os olhos de Dona Maria que segue em direção ao céu, observando tristemente o opaco azul. Seus olhos pareciam duas ilhas estéreis, náufragas em um deserto negro.
Ao voltar os olhos para Carapeba, Dona Maria me percebe, "o que você está fazendo aí, menino?! Não tá vendo que você vai se queimar?!". Não respondo. Em vez disso, dou uma guinada no pescoço e começo a lamber meu dorso com uma plácida calma de quem não está interessado na pergunta. Mas, em nome da carapeba que agora já lança no ar um irresistível aroma, decido assumir uma postura mais sedutora e a olho de novo, com uma doçura no olhar, e vou me esfregar em suas pernas cobertas de varizes.