terça-feira, 23 de agosto de 2011

o começo do novo fim

“Fale sobre coisas alegres, como flores se abrindo ao toque gentil dos primeiros raios de sol”, ela diz, mas só vejo flores se abrindo em agonia entre o abraço apertado de um sol ensandecido.
Em seus olhos minha alegria se dissipa, a realidade toma de assalto meu plano de fuga e as cores voltam-se para si, mostrando seu avesso. Ar denso, quase consigo andar na poeira que sobe no vento morno que arde dentro do pulmão. Solto a fumaça e logo tudo fica dormente... mente... minto... para mim mesmo na mente e para os outros, no sorriso.
Só isso, e tudo gira ou se arrasta, não há outro modo. Deve ser por isso que sinto essa vontade louca de correr, correr até bater na parede, assim, livremente, até a parede deixar de ser parede e eu deixar de ser eu. Aí então começa tudo. O fim toma a palavra e diz: “agora que já não resta mais nada, que tal reinventarmos tudo?”. O fim está louco, mas ninguém fala nada porque, no fundo, é essa loucura que faz o começo do novo.

3 comentários:

Nana Gomes disse...

Sabe, li este texto algumas vezes e ainda não consigo tecer uma análise pessoal ou formal sobre ele. Ainda não consigo decidir ou discernir que emoções ele provoca em mim. Mas tenho que dizer que você estabelece aqui um estilo já utilizado em outros textos... Há algumas marcas peculiares do seu estilo, como "[...] mas só vejo flores se abrindo em agonia [...]", "Em seus olhos minha alegria se dissipa [...]", "Só isso, e tudo gira ou se arrasta, não há outro modo" e "[...] e eu deixar de ser eu". Incrível como a negação faz parte do seu estilo! Até quando afirma, de certo modo, nega: "O fim toma a palavra e diz: 'agora que já não resta mais nada, que tal reinventarmos tudo?'"... Quem sabe, daqui algum tempo, eu consiga entender o que se passa em minhas emoções ao ler este texto?!

Marcus V. disse...

Esse texto foi escrito pelas mãos frias da esperança, uma velha dissimulada e já sem forças.

Analice Lean disse...

Existe um ponto em que a esperança é uma força arrasadora, como um ralo aberto no fundo de uma piscina. Já ouviu falar em entropia? Seu texto remete muito a isso: o trabalho que se faz para disciplinar coisas com o fim de obter uma força criadora/criativa, quando na verdade, a tendência do universo é o caos.